Fluxos de instantes

Em AISTHESIS a provocação é o ponto tenso que aparece, um pequeno conflito que se revela, é a porta aberta pra não sei onde. Mas pode ser também um estado descompromissado, relaxado, sem porque nem pra quê. Essa provocação vem de várias fontes, de várias motivações, mas especialmente da escuta e da relação com o instante. É preciso aguardá-la e ao mesmo tempo não buscá-la, não procurá-la, e só isso já se torna uma provocação, deixar o mundo atuar em mim. “Se não se esforça, se não se aflige nem se força, não é para sonhar com a libertação do mundo, mas para aí ser mais bem sucedido”*.

A ação, o gesto, o caminhar, a palavra que vem de um impulso, o desejo, a traição do desejo, o não querer saber, o não agir, a atenção focada na percepção, o abandono de algo que surge, o esgotamento e insistência numa possibilidade que brota, o foco em determinado ponto do espaço, tudo pode se tornar provocação. Aproveitar o sentimento de oportunidade, o mundo do inconstante, do ambíguo e aceitar as oscilações, as mutabilidades, a imprevisibilidade, lidar com ela. A partir dessas faíscas, ou junto mesmo com elas, desdobram-se as possibilidades criativas, onde uma palavra pode virar tema, a relação com outro pode revelar uma história, uma imagem de dois corpos se atritando ou se abraçando pode desaguar em narrativas, sentidos, para quem faz e também para quem observa. Uma das premissas é talvez radicalizar a aceitação do efêmero, daquilo que surgiu e não volta mais, pois não se quer fixar. Atua-se o fluxo, e não o fixo (talvez o instante seja menos efêmero que imaginamos!).

Em AISTHESIS a criação se dá na tensão gerada pelas ambiguidades que surgem dessas provocações escutadas e sentidas do instante, e um dos ingredientes especiais desse processo talvez esteja na liberdade permitida para deixar que elas se concretizem no corpo sem racionalizá-las demasiadamente. Almeja-se dar vazão ao devaneio, a coisas sem nexo, ao afloramento de poéticas caóticas que se organizam numa lógica própria, sem planejar, estruturar, codificar, sistematizar. Impossível? O sentido pelos sentidos, que às vezes quer ter endereço certo, mas não encontra o caminho, e por outras encontra caminhos, mas não tem endereços.

Parece falar de mim, mas pode estar falando de você.

[Giselle Rodrigues]

* Tratado da Eficácia – François Jullien

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