des-CON-FIO

“No início era a Aisthesis”*, lemos em um livro. Mas no início, Aisthesis era um grande buraco negro, que não nos engolia, mas nos oferecia sua grande boca aberta cheia de vazios, de vácuos, de espaços convidando a mergulhos. Para alguns, mergulhos de cabeça se jogando de um penhasco, para outros (eu), começar enfiando a pontinha dos pés (não sei nadar…nem voar).

Aisthesis (o processo) é arredio a definições, a nomenclaturas, qualificações, títulos, tópicos, a tudo que lembre categorização, “engarrafamento”. Desconfia de toda terminologia, questiona todas, desafia as palavras: aquelas que restringem, que delimitam, que encasulam, ele quer ampliar, transformar em palavras-tentáculos, a elas diz: é isso, mas também pode ser mais, pode ser tudo; aquelas que alargam, que estão abertas para inflar seu compacto signo a tantos e quantos significados puder, ele diz: FOCO, suas pernas são mais curtas, seus passos devem ser menores. Ou seja, em Aisthesis se produz definições para não confiar nelas, listas são feitas e olhadas com rabo de olho, de soslaio, não acreditamos em sua eficácia, não acreditamos que sejam capazes de desvendar, elucidar, decifrar a Esfinge. Estamos subestimando os termos, ou, quem sabe, superestimando Aisthesis?

Que tal a lista abaixo:

DISCURSO, ABANDONO, MENSAGEM, PROCEDIMENTO, PRINCÍPIO, DETONADOR, REGRA, APRESENTAÇÃO, PÚBLICO, INTENÇÃO INTUITIVA, HUMILDADE, LIXO, RESÍDUO, ESPETACULAR… e por aí vai. Se esta lista não é infinita, certamente é exaustiva. Cada uma destas inofensivas palavras passou pelo limbo, pelo jugo da dúvida, foi esmiuçada, perquirida, testada. No início, não podíamos gritá-las.

Aisthesis, no início eu te balbuciava. Hoje, acredito que meus lábios te articulam melhor. Espero o dia em que te tornes um grande fluxo verbal, um jorro molhado de palavras, um potente jato de vômito. Mas ainda desconfio de tua substância. Também te olho de través, para espreitar tuas funduras e, talvez, não mergulhar, mas deslizar nelas.

Pois eu, Edilson Oliveira de Carvalho, o dito Édi Oliveira, desconfio da vastidão das coisas, do vasto Aisthesis, do prazer que me proporciona, da sua afetividade, da sua emotividade, da sua inteligência, da sua naturalidade, do espaço de conforto que cria, do seu caos, dos seus silêncios, da sua poesia, da sua beleza, da sua feiura. DES-CON-FI-O. Mas notem que dentro deste vocábulo de quatro sílabas (se eu as tiver separado corretamente), habita a palavra Confio. E quantas vezes, desconfiando, não compramos certas coisas, não comemos tantas outras, não seguimos alguns e aceitamos outros, não partimos com um frio na barriga? Porque precisamos da experiência, precisamos saber o que tem depois dela e, assim, tendo sabido, confiar. Desconfiamos de uma sala escura e tateamos à procura de um interruptor para saber o que tem debaixo das roupas da escuridão. Aisthesis, escuridão, busco o teu interruptor. A questão é que em Aisthesis parece haver mais interruptores que salas, e saímos apertando intuitivamente, instintivamente, no desejo de um dia apertar aquele que nos mostre sua face (isso tudo me fez pensar em Deus). Ouço, agora, claramente, a voz da Giselle que diz: – Eu não sei como explicar, não consigo achar as palavras, mas eu sinto que isso vai dar em alguma coisa que eu ainda não sei explicar.

ONDE…ESTÃO…AS…PALAVRAS…?

[Édi Oliveira]

*   Aisthesis – estética, educação e comunidades. Maria de Beatriz Medeiros. Livro pertencente à bibliografia de pesquisa do projeto Aisthesis.

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