Dos afetos que levo comigo

Você chegou

Eu estava aqui

Neste exato momento nos encontramos

E agora?

Como ator ou diretor eu nunca fui ao teatro e a algum espaço de “mostrar” o trabalho em que não soubesse absolutamente nada do que aconteceria.

Não ensaiado – Não fixável – Não capturado – Não planejado

Instantâneo – Irrepetível – Singular – Inesperado – Arriscado

Assim é o instante

Assim é o encontro

Assim somos NÓS AGORA

Sei que um encontro é fugaz, porém, pode perpetuar no tempo. Talvez, daqui a 10 anos eu me lembre…

De um jovem me dizendo que seu rosto ficou quente e vermelho quando soube que o seu amor o traiu;

De uma senhora que brincava de encostar suas mãos nas minhas, sapateou comigo e sorriu;

De um casal de namorados sentados lado a lado, ela com a mão no ombro dele como se quisesse lembrar que estão juntos;

Do dia em que despejei água de uma jarra de vidro na mão trêmula e repetitiva de um Jonathan paralisado por muitos minutos numa cadeira;

De um motoqueiro-monge dizendo que zen significa aqui e agora. Que nunca perdemos nada porque nunca tivemos;

Da garota de vestido florido que me fez lembrar da personagem do Valter Hugo Mãe dizendo que seu filho iria florir em qualquer lugar que fosse;

Da outra jovem de cabelos pretos, longos e encaracolados falando que o silêncio era bom;

Do Glauber cantando Clara Nunes enquanto do outro lado da sala o Édi tapava os próprios olhos com as mãos tendo ao fundo uma São Paulo em movimento;

De aos 35 anos beijar, pela primeira vez, um cone de cor laranja usado no trânsito;

De diferentes pessoas lendo trechos de minhas antigas e íntimas cartas;

Da Giselle rodando pela sala como um pião que nunca soube que a infância acabava;

De todos cantarmos parabéns para o jovem que fazia anos naquele dia e veio dançar com a gente;

Da mulher séria com ar respeitável dizendo que a expressão corporal era algo muito importante e que as pessoas precisavam disso;

Do homem que ficou ali por um bom tempo com uma cara de que nada daquilo fazia sentido. E eu nem sei se era nisso que ele pensava;

Da Kenia dizendo que em 2055 vai desfilar sua “cauda de vida”, orgulhosa!

De você que num dia qualquer resolveu navegar pela internet e me encontrou aqui sem que eu ao menos soubesse

Talvez, eu pudesse lhe falar de tantas outras coisas sobre o que estou vivendo nesse projeto, mas, nada disso teria dado conta de lhe dizer que o ENCONTRO carrega uma POTÊNCIA de AFETOS que se expande pelo tempo, pela memória do corpo e pelo corpo da memória.

Um abraço e obrigado por ter vindo!

[Francis Wilker]

PS.: pensando melhor, pode me chamar de Francis, apenas isso.

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2 thoughts on “Dos afetos que levo comigo

  1. Oi Francis, que lindo encontrá-lo aqui, num instante…
    Lendo seu texto me emocionei. Obrigada.
    Acho que estou mais racional, precisando me embebedar de poesia, arte, brincadeira, fantasia, Francis…rss
    Nossa como aprendi naquele instante que convivi com o equipe da Fundação (foi tão bom ver o Glauber na foto!!!). Foi um encontro na minha vida de educadora. Aliás, como a educação precisa beber da fonte do encontro, da criação, desse instante. Um beijo e um queijo pro cês. Com carinho, Julieta

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