Cigarras e instantes

Uma cigarra escala um caule e fixada nele decide nascer-se de si mesma. Abandonar o corpo antigo para nascer voo e alguns instantes de grito. Brasília está invadida por esses gritos. De um lado: o corpo antigo vazio tornado enfeite de um tronco, entregue ao tempo; do outro o novo corpo que voa, enfeite de grito, de tardes inteiras. E entre tudo – sem antes ou depois – o instante. A cigarra é referência, resistência, desdobramento, esgotamento e auto-violação.

Meu corpo-cigarra é Aisthesis. Minha criação-voo é Aisthesis. Meu instante-grito é Aisthesis. A urgência, o que se é e se está.

A minha Aisthesis está invadida por gritos meus, dos outros, dos espaços, dos tempos. [Entende-se grito também como variações de silêncio ou despertar de diversas espécies de latência – desejos, emoções, impulsos – conscientes ou não].

As conexões, as ligações estabelecidas pelos nossos corpos em jogo se dão por partilha de criações – fervidas a impulsos em instante – que preliminarmente nascem da diferença, dos referenciais de cada intérprete. Essas conexões são como um abraço ao que surge, nasce, rompe na tentativa de encontrar-se com o outro (outro-pessoa, outro-espaço, outro-tempo…). O encontro é escuta de sensibilidades, apropriações ou violações de referenciais.

Há voos na minha Aisthesis criados a partir da mistura de memórias e referências postas em jogo. Tudo é contágio, contaminação e partilha.

Em alguma fresta, meu corpo-cigarra receava alguns encontros. E ainda receia.

O que deve ser criado não faz o menor sentido diante do que é ou está criado. O instante tem sido maior que todo o planejamento.

Há ruas não visitadas. Há ruas visitadas que tem se acumulado. Violei tantos corpos, que há memórias e imagens que são “mim”.

Há registros fílmicos, há registros musculares.

Os espaços onde nos encontramos também nos registram. Também nos violam.

O instante morre sem pedir ajuda, mas restam coincidências; (procedimentos?)

Os múltiplos olhares e referenciais dos criadores criam uma plataforma de jogo sujeita a diversas interferências. Um processo de escuta das diferenças de cada integrante, em interação, em incidências, em um cotidiano de experimentação e memória.

A violação do material do outro é também tempo e espaço de jogo. Tudo permite-se invasão. Corpo exposto à auto-violação, nem sempre consentida. É minha seiva para voo ou mais uma possibilidade sincera de contágio (Seria melhor a palavra contato? Com-tato?). Eu nem sempre consigo pensar muito. Sinto essa doença-grito como um ir.

Nessa dinâmica, o impulso desencadeia referências em livre possibilidade de criação, de espantar-se em outros territórios, novas ruas, memórias ou captura de outros limites. Há saltos sem redes em Aisthesis.

A criação é o que está em pleno ar, em trânsito – não o pouso.

Encontro resistências.

O desejo de jogo me disponibiliza a tentativas de deixar-me-voo para o outro.

Um corpo-cigarra viola o tempo-espaço de si para fazer nascer outro instante.

Violado eu às vezes sou outro voo.

[Jonathan Andrade]

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